Sei que às minhas palavras não se dará crédito algum. Consciência disso é o que não me falta. Entretanto, por mais inóxia que pareça ser a minha atitude de alertar o leitor sobre a seriedade do relato infra, devo dizer-lhe que uso a verdade como o meu único lastro.
O ano era 1991. Estávamos, três amigos e eu, numa chácara da simpática Tupã. Não fazíamos churrasco, e sim cachorros-quentes. Sim, inocentes sanduíches, regados a tubaína. Éramos adolescentes espinhentos, que só queriam se auto-afirmar e ser aceitos uns pelos outros. Nada mais que isso.
Pena que não imaginei que a famigerada brincadeira do copo fosse tão perigoso meio de mostrar a própria macheza. Fui eu mesmo quem sugeriu o jogo, a princípio recusado por um dos amigos, que só foi persuadido pelos argumentos do fodidão aqui. Disse-lhe que o além não existia e, caso contrário, nenhum fantasma faria mal aos amigos de um membro do grupo de jovens da igreja – como de fato eu era. Aliás, eu me sentia superior por isso.
E fomos à mesa. Quatro meninos, uma tábua Ouija e um copo. No “jogo”, não aconteceu nada de especial. O copo não se moveu em momento algum por virtude própria. Sei disso porque, nas únicas duas vezes em que ele buscou as letras, fui eu, o malandrão, que o impulsionei. Meus amigos ficaram muito, mas muito assustados. Nutri o medo deles, lembrando-os de que estávamos numa chácara sozinhos e a noite não demoraria nem meia hora para cair de vez. Como resolvi não citar nomes neste testemunho, posso até dizer que um dos garotos chorou a cântaros. Um pecado para a idade e o gênero.
Até aqui, o leitor não deparou com nada de mais. Mas, se tivesse me acompanhado até o banheiro da chácara (que ficava longe da casa), teria presenciado a cena mais aterrorizante de sua vida. E não se trata do pipi do gordinho, como uma piada faceira poderia sugerir, mas de algo muito mais imponente e assustador.
Eu urinava tranqüilo. Ria até. Lembrava-me do choro do medroso. Quando dei a última sacudida no pesado pênis recém-mijado, fui empurrado com inigualável força por alguém. Bati o rosto contra a parede e quebrei imediatamente um incisivo. Naquele minuto, tive a sensação de estar sonhando, como ocorre quando caímos de bicicleta. Tudo parecia em câmera lenta. Uma nesga de razão me avisou que a agressão provavelmente viera do chorão, cuja cobardia – atestada pelas ridículas lágrimas – justificaria um ato daqueles contra um homem de costas e com o pinto na mão. Antes fosse. Antes fosse um amigo… Quando olhei para trás, vi uma mulher loira, com metade do rosto coberta de algodão, esbaforindo-se e gemendo assustadoramente. Quando minhas retinas fixaram aquela imagem e convenceram o meu até então incrédulo cérebro de que eu estava diante da loira do banheiro, fui tomado por um arrepio generalizado, como jamais me ocorreria (até conhecer outra loira, mas a da Tiradentes). Tentei passar através dela, pensando que um espírito não poderia fazer nada contra tanta matéria, mas fui impedido com um tapa na cara. Caí ao chão, onde fiquei por uns três ou quatro minutos, esperando que o ódio daquela mulher se esvaísse a cada chute que ela me desferia nas costas, enquanto gritava escandalosa e proferia algumas palavras incompreensíveis.
Os dois chorávamos. Ela, de ódio de alguma coisa. Eu, de pavor. Cheguei a pensar que não fosse um espectro, já que entre ele e mim deveria – segundo o que os filmes me ensinaram – haver uma barreira intransponível. Como poderia eu ser bicudado por uma alma? Mas quando a vi esvaecer-se, num fade de imagem e som, o mesmo ocorreu com as indagações lógicas.
Voltei à casa da chácara. Expliquei aos meninos que o sangue na boca e as marcas nas costas se deviam a um tombo no banheiro. O chorão riu nesse momento. Decidi não lhes contar nada porque pensara poder invocar aquele ser se pronunciasse a sua maldita designação. Guardei-o trancafiado na minha memória, reinando entre meus piores traumas, até este momento, em que digito – chorando tanto quanto naqueles minutos no banheiro – a narração de um dos piores momentos da minha vida. Decidi denunciar essa coisa porque ontem ela voltou. Levei um soco na nuca enquanto urinava no banheiro de um conhecido bar daqui de Londrina. E não havia ninguém lá além de mim. Só podia ser ela.
Não sei o que vai acontecer comigo agora. Mas sinto-me melhor por poder avisar a todos que o perigo está no banheiro. Sei que parece uma brincadeira, mas peço-lhes que façam como as mulheres: nunca mais mijem sozinhos no banheiro.